Por Flávia M.Edição 0212 min leitura

O futuro não é um lugar

Criar uma criança na era do capitalismo de vigilância e do cloud capital. Uma pergunta estrutural sobre previsibilidade, automação comportamental e resistência.

O futuro não é um lugar, é alguém que eu amo.

Essa frase só faz sentido se a gente recusar a gramática em que a palavra "futuro" opera hoje: horizonte de mercado, roadmap, tendência. O futuro-como-lugar é uma abstração útil pra quem precisa vender destino. Mas quem cuida de uma criança sabe que futuro é outra coisa. É um corpo pequeno que vai atravessar décadas das quais eu não vou estar inteira pra ver. É uma pergunta concreta: o que é essencial que essa pessoa aprenda, antes que o mundo aprenda por ela?

A pergunta parece pedagógica. Não é só. É estrutural.


Máquina e Capital
FIG 01. Máquina e CapitalO capital mudou de natureza: o valor da renda agora é extraído de plataforma.

O economista grego Yanis Varoufakis argumenta, em Technofeudalism: What Killed Capitalism (2023), que o capital mudou de natureza. Não estamos mais num sistema em que o valor vem do lucro de mercado. Estamos num sistema em que o valor vem da renda extraída de plataforma, o que ele chama de cloud capital.

A tese é contestada. Sociólogos como Nicholas Gane e teóricos como Jodi Dean recusam o termo "technofeudalismo" e preferem falar em mutação do capitalismo, não em sua morte. Mas há convergência no diagnóstico de base: o modelo econômico dominante hoje não é de troca, é de captura.

Esse detalhe importa pra quem está criando uma criança. Porque captura, como Shoshana Zuboff mostrou em The Age of Surveillance Capitalism (2019), não é acidente do sistema. É o sistema. A matéria-prima das plataformas é o comportamento humano transformado em dado, e a finalidade é o que Zuboff nomeia com precisão clínica: behavioral modification. Sintonizar, conduzir em rebanho, condicionar.

A frase de Zuboff que me persegue é esta: o objetivo das plataformas não é mais conhecer o comportamento humano. É automatizar o humano.

Automatizar o humano.Releia.

É nesse ponto que a pergunta sobre educação deixa de ser pedagógica e vira política. Se o modelo de negócio dominante da década precisa que o sujeito seja previsível, e precisa disso desde cedo, quanto antes melhor, porque o dado infantil é mais maleável, então ensinar uma criança a ser imprevisível, a ter mente sua, a resistir à automação do próprio comportamento, não é habilidade de futuro. É contracondução.

Zuboff chama o que está em jogo de right to the future tense. O direito ao tempo futuro. A capacidade de me projetar no amanhã e de fazer desse amanhã uma dimensão presente do que eu escolho. Sem esse direito, ela escreve, não há autonomia. E sem autonomia não há juízo moral nem pensamento crítico possíveis.

O que está sendo negociado, quando um algoritmo decide o próximo vídeo que uma criança de sete anos vai ver, não é entretenimento. É o tempo futuro dela. É a capacidade de querer uma coisa que o sistema não previu.


Inversão Graeber
FIG 02. Inversão GraeberA falha na formulação sobre a ocupação das máquinas no trabalho.

Esse é o lado sombrio. Tem o outro, que é a pergunta sobre trabalho, e que quase todo mundo faz errado.

A pergunta errada é "o que as máquinas vão ocupar?". Fábrica automatiza há décadas. Banco trocou caixa por caixa eletrônico nos anos 80. Automação não é novidade. O que muda é o escopo. Mas a pergunta pela ocupação da máquina é sempre formulada do ponto de vista da máquina, como se ela tivesse agência histórica própria e nós fôssemos o resíduo.

O antropólogo David Graeber inverteu essa pergunta antes de morrer. Em entrevista à Dissent Magazine em 2018, no lançamento de Bullshit Jobs, ele disse uma coisa que devia ser o ponto de partida de toda discussão séria sobre trabalho e IA:

Não queríamos um robô acalmando bêbados ou confortando crianças perdidas. Precisamos enxergar valor no tipo de trabalho que só queremos que humanos façam.

A pergunta não é o que a máquina pode. É o que a gente não quer que ela ocupe.

Cuidado é o exemplo óbvio. Não porque a máquina não consiga simular cuidado. Ela consegue, cada vez melhor, e conseguir simular não é argumento contra. O argumento é que cuidado é a atividade em que a presença humana é a coisa, não o meio. Um robô executa o gesto de segurar uma criança que chora. Mas o gesto não é o cuidado. O gesto é signo do cuidado. O que cura é a outra consciência do outro lado do gesto, e isso, por definição, uma máquina não tem.

bell hooks, em Tudo sobre o amor (2000), escreve que cuidado e apoio são as bases do amor, em oposição a abuso e humilhação. Parece simples. Não é. Ela está dizendo que amor não é sentimento, é prática. E que essa prática se aprende, ou se desaprende, na infância, no primeiro ambiente em que a criança existe.

Em Ensinando a transgredir (1994), hooks vai adiante: educar é ato de amor, e amor é ato político. Ensinar uma criança é sempre tomar posição sobre que tipo de sujeito se quer ver no mundo. Neutralidade pedagógica é ficção. Toda educação escolhe, mesmo quando finge não escolher.

Juntando as quatro camadas, Varoufakis sobre o capital, Zuboff sobre a captura, Graeber sobre o trabalho, hooks sobre o amor, a pergunta original se reorganiza. Não é "que habilidades ensinar pra uma criança?". É: num mundo cujo modelo econômico precisa capturar sua atenção, modificar seu comportamento, automatizar sua previsibilidade e terceirizar seu juízo, o que é essencial que ela aprenda pra continuar sendo alguém?

Três coisas, eu diria. Anteriores a qualquer habilidade técnica, anteriores a qualquer skill listável em currículo.

  • I. Atenção soberana.A capacidade de permanecer em algo sem ser arrancada dali. É o oposto do que o modelo precisa. Uma criança que consegue ficar numa coisa, um livro, um problema, um silêncio, outro rosto, é uma criança que o sistema não consegue monetizar no ritmo de que precisa. Atenção é soberania. Não é mindfulness de aplicativo. É a disciplina muscular de escolher onde a consciência se apoia.
  • II. Cuidado.Dar e receber. Reconhecer a outra consciência do outro lado do gesto. É a habilidade que nenhuma máquina ocupa por natureza da atividade, não por limite técnico. É também a habilidade que sistematicamente se ensina às meninas e se nega aos meninos, e esse corte por gênero é parte do problema estrutural, não acidente. Se cuidado é o trabalho humano que permanece, e se cuidado continua sendo trabalho invisível de mulheres, a automação vai redistribuir renda de tudo o que sobra, enquanto o que importa segue sem valor no PIB.
  • III. Juízo próprio.Pensar por si. O sistema precisa que ela terceirize. O algoritmo quer decidir por ela o que ver, o que querer, com quem conversar, em quem acreditar. Uma criança que aprende a duvidar do próprio feed, a perguntar quem lucra com a próxima sugestão, a suspender o julgamento até entender de onde vem a informação, é tecnicamente ingovernável pelo modelo. É o exercício do direito ao tempo futuro.

Nada disso aparece como disciplina em nenhum currículo nacional. Não existe "atenção soberana" na BNCC. Não existe cálculo de cuidado no Enem. Juízo próprio, quando aparece, vem travestido de "pensamento crítico", expressão tão esvaziada por consultoria de educação que virou sinônimo de "saber opinar em sala".

Essas três coisas se aprendem em outro lugar: na relação. Com um adulto que presta atenção de volta, que cuida sem performar, que pensa em voz alta e deixa a criança acompanhar o raciocínio se formando. O currículo dessa aprendizagem é a vida compartilhada. E é por isso que ela está ameaçada: porque a vida compartilhada é exatamente o que o modelo de negócio precisa substituir por engagement.

Criar uma criança em 2026 é, querendo ou não, um ato de disputa contra infraestruturas desenhadas pra fazer esse trabalho no meu lugar. E fazer pior. E fazer no interesse de outros.


O futuro não é um lugar.

Lugar é abstração. Lugar é onde o algoritmo promete te levar, onde a startup diz que vai estar, onde a tendência aponta. Lugar é o que economista desenha em gráfico de projeção, o que futurista vende em palestra, o que plataforma jura ter descoberto sobre o que vem depois.

Futuro é alguém. Alguém específico, com nome, com corpo, com um jeito particular de rir quando entende uma piada pela primeira vez. Alguém que eu amo e que vai existir no mundo depois que eu não estiver mais por perto pra proteger.

Essa pessoa não precisa que eu prepare ela pro futuro. Precisa que eu ensine ela a continuar sendo ela, enquanto atravessa um sistema construído pra torná-la mais previsível, mais distraída, mais modificável, mais lucrativa.

Isso, suspeito, é tudo que educação sempre foi. Só que antes o sistema era mais lento e menos inteligente. Agora ele aprende junto.

F.
São Paulo · Maio de 2026

Referências e Notas

  • Varoufakis, Yanis. Technofeudalism: What Killed Capitalism. Melville House, 2023.
  • Zuboff, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. PublicAffairs, 2019.
  • Graeber, David. Bullshit Jobs: A Theory. Simon & Schuster, 2018. Entrevista adicional em Dissent Magazine, agosto de 2018.
  • hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2020 (original: All About Love, 2000).
  • hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017 (original: Teaching to Transgress, 1994).
  • *Sobre a controvérsia científica da tese de Haidt em The Anxious Generation (que optei por não usar como ancoragem neste ensaio): ver Odgers, C. L., revisão em Nature (2024); Fassi et al., Nature Human Behaviour (2025); Orben & Przybylski, Nature Human Behaviour (2019).

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